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Filme deixa de fora as boas entrelinhas do livro

 

A estrutura do romance Um dia, do inglês David Nicholls (bestseller mundial, vendeu, somente no Reino Unido, 1,5 milhão de exemplares), é um presente para qualquer cineasta. Vinte anos na vida de dois personagens, contados a partir da mesma data: 15 de julho. Dessa maneira, o cinema pode explorar mudanças tanto externas (lugares, modas, culturas) quanto internas (o crescimento dos próprios protagonistas). 

A diretora dinamarquesa Lone Sherfig, com as credenciais conseguidas com o delicado Educação  (roteiro original do escritor Nick Hornby, a quem o livro de Nicholls foi bastante comparado), tinha a faca e o queijo nas mãos para levar a história de Emma Morley e Dexter Mayhew para a tela grande. Só que há um porém: muito da graça da narrativa do livro está nas entrelinhas e essas ficaram de fora na transposição de Um dia do livro para o cinema. 
Em poucas linhas, a história, que começa em 1988, mostra o relacionamento de Dexter e Emma, um “Eduardo e Mônica” em tudo. Ele é filho de pais abastados, fez um curso universitário mediano sem saber exatamente por quê, e quer viajar o mundo sem outro objetivo que não curtir a vida. Ela vem da classe trabalhadora, é politizada, adora literatura, forma-se com algum louvor na universidade, sonha em se tornar escritora.
Quem estiver pensando “já vi isso antes” vai se enganar. Apresentados dessa forma, Emma e Dexter mais parecem personagens de uma típica comédia romântica. Ainda mais com Anne Hathaway, que vem se dedicando bastante ao gênero (Amor e inocência, Idas e vindas do amor, Amor e outras drogas) no principal papel feminino. Na Inglaterra, o falso sotaque inglês da norte-americana foi bastante criticado. Hathaway tem como partner Jim Sturgess, de Across the universe, bem menos conhecido que ela mas competente no papel). Um dia traz um elemento surpresa que desloca completamente o fio da história. 
Num primeiro momento, Emma tem muito mais nuances e Dexter parece um clichê ambulante. Só que nem tudo está nas aparências e o desenrolar dos anos ao mesmo tempo em que afasta os personagens, acaba os unindo. O filme tenta cumprir à risca os acontecimentos da narrativa criada por Nicholls. Não deixa de ser um feito, já que a diretora teve que comprimir 20 anos em menos de duas horas.
Mas ficaram de fora elementos essenciais: a acidez dos diálogos; as observações pertinentes que cada um dos personagens faz do mundo à sua volta; a doçura que se faz presente mesmo nos momentos mais duros. O problema na adaptação de Lone Sherfig é que ela se ateve tanto aos fatos, que não conseguiu trazer emoção a uma história criada para emocionar. 

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