
Flautas e violinos mobilizam crianças de escola pública a melhorar notas e mudar comportamento
Enquanto projeto com mídias digitais explora a comunicação
No lugar do barulho desenfreado da indisciplina, o som doce de flautas e violinos. Música erudita para ouvidos até então acostumados a batidas fortes e letras quase sempre vazias em conteúdo. E um mundo de descobertas para estimular o processo de ensino-aprendizagem entre alunos e educadores de uma instituição pública de João Monlevade, na Região Central do estado. Desde abril, o ensino de música clássica está mudando a realidade de quem estuda na Escola Municipal Governador Israel Pinheiro, no Bairro Luanda, com o projeto Acordes. As transformações não param por aí. Em 2012, essas crianças e adolescentes vão formar a primeira orquestra de câmara da cidade.
Na turma está a aluna do 8º ano do ensino fundamental Ana Carolina Taveira Silva, de 13 anos. Asa Branca, o Hino Nacional e até a 9ª Sinfonia de Beethoven fazem parte do repertório dessa garota esperta e falante. A dedicação à flauta já rendeu momentos memoráveis com a família. Ela tocou nas bodas de ouro dos avós e, com certeza, deu ao casal um dos melhores presentes. O início foi por acaso, mas a vontade estava guardada há longo tempo: “Fiquei sabendo que haveria um grupo de aprendizagem, me inscrevi e tive a oportunidade de entrar. Nunca tinha escutado música clássica, mas sempre quis aprender. Agora, estou amando”. Na escola, os resultados também são grandiosos. “Melhorei nos estudos, fiquei mais dedicada e esforçada”, diz.
Exemplo como o de Ana Carolina é o que move o Acordes, uma iniciativa da Fundação ArcelorMittal Brasil com a parceria da Secretaria de Educação de Monlevade. As aulas de flauta doce e violino são ministradas uma vez por semana, durante uma hora. O gerente de Arte e Cultura da fundação, Marcelo Santos, ressalta que o projeto, focado em jovens de escolas públicas, parte de algumas premissas. Entre elas está o desenvolvimento de comunidades no entorno da empresa, a declaração de diversidade cultural da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e os apontamentos do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). O programa está amparado ainda na legislação, que prevê o ensino de música nas escolas de todo o país, em vigor desde o último mês de agosto.
“É a democratização do acesso à arte e à cultura de qualidade. Por se tratar de escolas públicas, o projeto opera na linha de inclusão social e temos também o objetivo de profissionalização individual. Há expectativa grande de que consigamos estimular a comunidade a ter acesso a esse bem cultural tão importante que é a música erudita”, afirma Marcelo Santos. Mais que aprender música, o gerente destaca a importância da iniciativa em outros ramos, como a melhoria do desempenho escolar e a socializaçãoo saudável dos alunos com escola, professores e outros colegas.
A adesão foi tão grande que estudantes antes excluídos da cena escolar passaram a ir à Israel Pinheiro só para participar das aulas de música. Mas eles tiveram também de entrar nos eixos e fazer o dever de casa completo – uma das exigências para participar do Acordes é a regularidade escolar. “Cria uma relação diferenciada dos alunos com a escola, que passa a ser um lugar de um conhecimento inusitado, propiciado por uma didática muito especial. É uma aula diferente do conteúdo teórico, com resultados na prática, que é toda a mobilização dos jovens nesse contexto musical”, destaca o gerente da Fundação Arcelor.
NOTAS MUSICAIS
E esse universo a professora de flauta Aline Azevedo conhece bem. Somente para esse instrumento, são 55 estudantes, divididos em cinco turmas. Segundo ela, afinação e aula de conjunto estão produzindo, além de belas notas musicais, disciplina, respeito e mudança de comportamento entre os próprios estudantes e deles com a comunidade acadêmica. “Havia um problema sério de disciplina na escola e, hoje, isso mudou, pois eles encontraram um norte. Antes, talvez não tivessem tido a oportunidade de achar algo que os motivasse e, agora, descobriram que têm talento ou que podem consegui-lo por meio do esforço. Aula de música é algo que nunca imaginavam ter, por dificuldade financeira ou de acesso ao aprendizado”, destaca a professora.
Para Aline, o ganho é muito maior: “O interesse não é que todos se tornem músicos. O contato com a linguagem musical traz benefícios independentemente da profissão que seguirem e isso não se perderá. Disciplina, companheirismo e outras descobertas pesam positivamente na vida deles e faz toda a diferença”.








































































